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terça-feira, 20 de março de 2012

Uma Monografia sobre Dança do Ventre - muito interessante!!

Monografia de Carol Louro de 2005 para o curso de Comunicação das Artes do Corpo da PUC-SP.
Um trechinho para vocês lerem, infelizmente como ela aborda no texto nossa dança é estereotipada como "dança da sedução", o que denigre com certeza a imagem da Dança do Ventre, poxa para nós que estudamos esta dança a vimos como arte puramente dita, deixem seus comentários minhas queridas e queridos, beijos,
Diani.
"Já foi o tempo em que a dança do ventre era tipicamente árabe. Hoje, ela pode ser apreciada em diversas partes do mundo, inclusive em lugares que não só aderiram à sua prática como também acrescentaram informações colocando a experiência em evolução. A difusão e a aceitação desta arte é algo realmente impressionante, todavia, a “eroticidade” mal interpretada parece estigmatizá-la. Esta, assim como outras marcas que a dança do ventre foi adquirindo no decorrer dos seis mil anos de sua existência, parece ser um obstáculo para aqueles que querem estudar e apresentar um novo viés para esta arte.

A Dança do Ventre tornou-se popularmente conhecida, no Brasil, através da novela “O Clone”, exibida em 2002. Escrita por Glória Peres, o melodrama trouxe um pouco da cultura árabe e mostrou que a dança pode ser apreciada como forma de entretenimento. Como tudo que é tratado através da comunicação de massa, a dança do ventre também se tornou uma febre. Milhares de meninas que estavam iniciando seus estudos começaram a dar aulas para atender a proliferação dos inúmeros lugares que estavam ensinando a dança do ventre. Todo mundo queria ser Jade (protagonista feminino) e dançar para conquistar Lucas (o galã). Conhecida como uma dança sensualíssima, acabou por se tornar “uma arte de sacolejar os quadris” (Minha Revista, 2001). De atriz, Giovanna Antonelli passou à instrutora da técnica e, por conseqüência, da “arte de seduzir”. Apareceu em muitas revistas ensinando passos através de fotografias.
Esta dança mergulhou em profunda deturpação. O fato de ser uma “arma para a sedução” (Minha Revista, 2001), fez com que muitas mulheres se tornassem bailarinas de dança do ventre da noite para o dia. Usar a dança para apimentar uma relação a dois, tornou-se uma meta a ser conquistada em menos de um mês de aula, não raramente associada a técnicas de strip-tease e assim por diante. Contudo, este boom sofrido pela cultura árabe, ao invés de elucidativo, fez retroceder as imagens dos séculos dezoito e dezenove quando, devido às novas rotas de comércio, a moda árabe atingiu a Europa, adentrou as casas, inspirou a moda, os costumes e alguns segmentos das artes. Napoleão e sua expedição, em profundo deslumbramento, principalmente pelo Egito, produziram volumosas páginas a respeito do “fascinante e misterioso” Oriente, dando início à Era Orientalista, período em que foi construída uma espécie de “imaginário oriental” altamente sedutor e desejoso reforçado pelas pinturas da época que retratavam mulheres misteriosas e nuas. Em seu livro, Orientalismo - o Oriente como invenção do Ocidente, o ensaísta palestino Edward W. Said (1978) descreveu a invenção de uma falsa imagem de grande parte do que conhecemos como árabe. Ressaltou que havia antes de mais nada uma necessidade de suprir variados interesses, muito mais do que um compromisso com um contexto determinado. Orientalismo nada mais era do que um discurso de poder. A apropriação equivocada da cultura árabe resultou em equívocos significativos em relação ao corpo da mulher oriental, porque este foi submetido a um olhar carregado de valores culturais distintos.
Não há registro, por exemplo, de que nem as mais “ousadas” das bailarinas egípcias, conhecidas por ghaziya (plural ghawazee), utilizassem roupas que deixassem o ventre a mostra, as pernas de fora e os seios expostos. É importante perceber que, hoje, a roupa de dança do ventre tornou-se uma indumentária exótica, porque carrega a intenção ou interpretação da bailarina, o que muitas vezes faz com que a roupa apareça mais do que a própria, deslocando o olhar do espectador para o corpo-objeto. [A roupa composta por duas peças que deixa o ventre à mostra] tornou-se uma marca. Há evidências de que esta roupa “congela” a dança, pois insiste no mesmo significado, aquele configurado na nossa sociedade.
O povo egípcio é alegre e muito dançante. São ousados e extremamente festivos. A dança do ventre no Egito conseguiu sobreviver à religião mulçumana, que é super rígida em relação ao comportamento das mulheres. Todos amam esta dança e a tratam com respeito. A diferença é que embora a considerem sensual e atraente não a tratam especificamente como “sexual”. A mulher árabe quando dança, é vista em primeiro lugar como uma mulher dançando, por isso sua sensualidade é expressa de forma natural, espontânea, da forma como ela entende esses signos. O olhar, a sedução, o jogo e o improviso fazem parte de uma apropriação com o público. A bailarina ocidental, fruto de uma cultura de espetáculo representa e “espetaculariza” o que é ser mulher, porque dentro da autonomia que o próprio palco lhe dá, acredita que “tudo pode” ao dançar, e então, não raramente interpreta de forma esteriotipada essa mulher poderosa, sedutora e sensual.
É preciso salientar que não há como negar a sensualidade da dança do ventre. No entanto, o motivo pelo qual a sedução na dança do ventre é tratada e olhada de maneira “sexista” ocorre principalmente por duas razões: (1) a desinformação generalizada, pois há um cultivo ao misticismo exagerado e a criação do mito bailarina; e (2) um forte preconceito em torno da mulher, figura sedutora, gerado e introjetado pela igreja medieval.
Há uma displicência por parte dos profissionais da área de Dança do Ventre que insistem em utilizar o lado sensual da dança como marketing, o que acaba destinando-a a um “recurso amoroso” e dando vazão à mídia para igualar a dança do ventre ao pompoarismo e ao strip-tease.Transformada em objeto utilitário, podemos dizer que o slogan da dança do ventre está vinculado aos benefícios que ela traz. Virou um “pacotinho”, cujo conteúdo inclui: autoestima, sensualidade, feminilidade, mistério e fertilidade. Pode ser “comprado” e “consumido”, mostrando resultados nas primeiras aulas. Este excesso de características exóticas e pejorativas atribuiu à dança do ventre um misticismo exagerado e fez com que muitas histórias sobre sua origem fossem inventadas e vendidas como verdadeiras, apenas com o intuito de manter estável o imaginário de lugares que só conhecemos através dos filmes."

Quem se interessou e deseja ler na íntegra, a monografia está disponível no seguinte endereço: http://pdfcast.org/pdf/repensando-a-dan-a-do-ventre-an-lise-cr-tica-e-os-novos-campos-de-aplica-o-2005-carolina-louro


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